Justiça por Mãe Bernadete: memória, resistência e luta dos povos quilombolas

Maria Bernadete Pacífico, conhecida nacionalmente como Mãe Bernadete, foi uma das mais importantes lideranças quilombolas do Brasil contemporâneo. Ialorixá, guardiã de saberes ancestrais e referência na defesa dos direitos territoriais, dedicou sua vida à proteção de sua comunidade, o Quilombo Pitanga dos Palmares, na Bahia. Sua trajetória uniu espiritualidade, resistência cultural e enfrentamento direto às violências históricas sofridas pelos povos quilombolas no país. Mãe Bernadete tornou-se símbolo da luta pela terra, pela dignidade e pela preservação das tradições afro-brasileiras. Após o assassinato de seu filho, Flávio Gabriel Pacífico, em 2017, ela assumiu ainda mais fortemente a liderança do quilombo. O crime, que permanece marcado pela impunidade, evidenciou a perseguição enfrentada por lideranças negras e quilombolas em diversas regiões do Brasil. Mesmo diante da dor, Mãe Bernadete seguiu firme, denunciando ameaças, conflitos fundiários e violações de direitos humanos. Seu assassinato, em 2023, provocou indignação nacional e internacional. O crime não pode ser compreendido como um episódio isolado, mas como parte de um contexto histórico marcado pela herança da escravidão, pela disputa de terras e pela ausência de proteção efetiva do Estado às comunidades tradicionais.

A história de Mãe Bernadete dialoga com séculos de resistência iniciados ainda no período colonial, quando os quilombos surgiram como territórios de liberdade diante da opressão escravista. Sua atuação representava a continuidade dessa luta coletiva por existência, autonomia e reconhecimento. Diante do julgamento dos acusados, movimentos sociais, organizações de direitos humanos e lideranças populares reforçam que não se trata apenas de responsabilizar indivíduos, mas de reconhecer o valor de uma vida dedicada à defesa de um povo, de uma cultura e de direitos garantidos pela Constituição Federal de 1988. Mais do que punição, o caso exige justiça reparadora: reparação da memória, da dignidade e da luta de Mãe Bernadete. Seu nome não pode ser reduzido às estatísticas da violência no campo ou do racismo estrutural, mas preservado como símbolo de coragem, resistência e verdade. A condenação dos responsáveis representa um passo necessário, porém insuficiente, se não vier acompanhada de políticas públicas concretas de proteção às lideranças quilombolas, da regularização dos territórios tradicionais e do enfrentamento estrutural ao racismo.

Mãe Bernadete permanece viva na força de seu povo. Sua voz, silenciada pela violência, continua ecoando como um chamado permanente por justiça, dignidade e respeito.